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e se me achar esquisita…

A ESCRITA DO FRAGMENTO
Susana Souto Silva (UFAL)
RESUMO
// Este artigo discute o fragmento como constitutivo da escrita clariceana, a partir de crônicas
dessa autora publicadas no livro ‘A descoberta do mundo”  (1984).
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
(Ricardo Reis)
De todas as imagens que a mitologia grega nos legou, a que representa a noção de tempo é uma das mais instigantes: Cronos, o pai devorador.
A sua narrativa assusta-nos e comove-nos. Fala do que é em nós a corrosão cotidiana do tempo, a cruel
irreversibilidade do tempo, que, ao passar, “imprime em toda flor sua pisada”, como
canta Gregório de Matos.
Cronos, o deus, simultaneamente, doador e devorador da vida, é uma bela metáfora do tempo. Para escaparmos a essa devoração constante ou, ao menos, para esquecê-la ou lembrá-la esteticamente, temos a arte, e, mais especificamente, temos a literatura, a arte que se faz com palavras.
Cronos está presente em diversos vocábulos: cronológico, diacrônico, sincrônico. Está inscrito na palavra “crônica”, que pode ser lida como adjetivo (quando qualifica uma doença, por exemplo) e como substantivo, quando usado como gênero do discurso. Como gênero, foi muitas vezes considerado
menor.
Nos últimos tempos, porém, a crítica tem tentado quebrar essa régua invisível e injusta para se defrontar com os textos, sem a perspectiva de medi-los. Como destacou* Carlos Heitor Cony, um dos grandes
cronistas Brasil:
“A crônica só é gênero menor em termos de literatura. Admite-se como inabalável a certeza de que a literatura tende a ser perene, intemporal. Não faltam teóricos para garantir que a arte, nela incluindo a arte literária, existe para superar a morte. E, se a literatura busca a infinitude, a crônica é crônica mesmo, expressão de finitude. É temporal, fatiada da realidade e desvinculada do tempo maior que é o da literatura
como arte.
A crônica atuaria, assim, em uma dupla temporalidade: a pretensamente perene da arte e a precária, fugaz, do jornalismo. O jornal é um suporte que comporta, simultaneamente, o que sobrevive e o que sucumbe à
passagem do tempo:
Mas daí não se deve concluir que ela seja uma defunta. Dizem que se trata de produto típico do jornalismo brasileiro, mas não exclusivo. Sendo por definição um texto datado, tem fases, sacrifica-se a modismos, mas, devido à elegância ou habilidade de seus cultores, consegue sobreviver em diferentes manifestações
pleonasticamente crônicas: como gênero (crônica) e como vinculada a um tempo (crônica também).
Flora Bender e Laurito Ilka também destacam a dificuldade de definir a crônicade modo categórico, devido ao seu caráter de gênero misto, de gênero impuro (mas qual seria, hoje, depois do advento do romance, puro?),
Quantos de nós divagamos sobre as pequenas coisas do dia-a-dia? Muitas das quais não aparecem estampadas nas manchetes dos jornais, revistas ou programas televisuais. São estes pequenos acontecimentos tão particulares – detalhes da nossa infância; reflexões filosóficas ou metafísicas sobre a vida, sobre os acontecimentos noticiados ou mesmo o efeito em nós de uma brisa suave numa tarde de domingo – motivadores de um texto, localizado nos periódicos, que para muitos teóricos é
considerado ambíguo (misto de referencialidade jornalística e narração literária), mas que se estudado detalhadamente apresenta autonomia estética, semântica e enorme abrangência temática, a crônica.
Gênero híbrido, avesso às definições estanques, mergulhado no fluir do tempo e sujeito as suas transformações, publicado em veículos nos quais predominam outras textualidades, a crônica tem com o tempo a relação de texto curto, que aborda um acontecimento atual (do tempo presente) e que também não se inscreve naquele desejo de sobreviver a ele. Mas muitas crônicas escapam das folhas que são levadas para embalar peixe ou acender o fogão à lenha. Entre essas páginas, quase sempre estão as
crônicas que são depois recuperadas em livros.
Clarice cronista: inclassificável?
No caso de Clarice Lispector, a problematização das possibilidades de escrita e seu constante insurgir-se contra a limitação das classificações levaram-na a escrever crônicas também diferenciadas. Por falta de tempo, ou, como ela mesma declara, por não saber muito bem o que significava escrever crônicas, a autora de A hora da estrela (1977) selecionava um fragmento (palavra importante para pensarmos a sua escrita) de um dos seus livros – romance ou conto – e mandava-o para o jornal. Outras vezes,
enviava um conto curto, que, posteriormente, era publicado com outro título em livro, como conto, não como crônica.
Clarice publicou muitas de suas crônicas no Jornal do Brasil, entre agosto de 1967 e dezembro de 1973. Vários desses textos foram depois lidos, selecionados e republicados no livro A descoberta do mundo
Vejamos alguns procedimentos utilizados pela autora para tecer suas crônicas, para desnortear o tempo, principalmente o tempo da leitura:
(Uma consideração inicial é o caráter fragmentário da crônica clariceana. Sua escrita trabalha contra a idéia de linearidade; os seus livros parecem dizer-nos, entre muitas outras coisas, que não há possibilidade de encadeamento lógico em que a causa preceda o efeito, criando, assim, um universo no qual o sentido estaria ancorado em uma articulação na qual predomina a causalidade, a explicação, o explícito. Antes, as
suas narrativas fazem-nos desconfiar sequer da possibilidade de articulação de sentidos
de modo inteligível. Somos lançados em um espaço em que a literatura flerta com a
loucura, com o sem-sentido. Somos desarticulados ou temos, ao menos, a noção de leitura como decifração desarticulada, em textos nos quais os enigmas se sucedem sem promessa de descoberta, pelo narrador ou pelo leitor, de seu segredo.
Em sua estréia, a fragmentação assustou os primeiros críticos. Álvaro Lins, Antonio Candido, Sérgio Milliet, críticos de renome, perguntaram-se se Perto do coração selvagem era mesmo um romance.
Para Candido e Lins, a descontinuidade dos quadros, decorrente da fragmentação da narrativa, comprometia o romance, entendido, então, como um gênero em que predominava a estreita articulação entre partes que se seguiam, em uma dinâmica da sucessividade articuladora do sentido, entendido como
superposição de dados e elementos da narrativa que mutuamente se complementavam e esclareciam. A crítica estava, naquele momento, orientada pela noção de romance realista, em moldes convencionais.
No conto, a fragmentação clariceana era mais tolera da. Ali, no espaço da narrativa curta, parecia que a escrita fragmentada estaria garantida/controlada e podia ser exercitada sem perigo para a articulação dos sentidos de um modo reconhecido pelos protocolos de leitura e escrita vigentes, pelos modos de ler e de escrever consagrados pela tradição.
E a crônica? A crônica traz, para a cena da obra clariceana, a possibilidade radical de fragmentação. Primeiro, por ser já um texto que não tem definição rígida, sendo visto mesmo como fragmento, como reflexão, narrativa, discussão, enfim, como seleção de um pedaço do tempo, do tempo cotidiano, político, cultural, do tempo em que o jornal atua, em que a história transcorre. Assim como Cronos, o cronista também devora seu bocado de tempo e dele faz seu texto, dando-lhe novos possíveis sentidos, deslocando o fato do olhar jornalístico ou historiográfico, das garras da ciência ou da informação, para oferecer-lhe o tempo da permanência da literatura, o tempo da fruição estética, que se abre para além da leitura do jornal.
Segundo, porque muitas das crônicas de Clarice são de fato pedaços, fragmentos, dos seus livros, dos livros que ela estava escrevendo e nos quais estava realmente interessada. Devemos lembrar que ela escreveu crônicas, porque o ofício de escritora de textos literários não supria suas necessidades financeiras, assim, ela produzia esses textos sem interromper sua escrita de romances e contos.
A crônica que se segue, por exemplo, foi publicada no Jornal do Brasil e, depois, em Água viva, livro de difícil classificação, conduzido por uma espécie de narrador lírico, que filtra tudo que narra por uma perspectiva interiorizada.
O fragmento de Água viva que se transformou em crônica, quando é inserido nesse volume, não
segue um encadeamento que o torna prisioneiro da dinâmica da sucessividade, predominante na noção de narrativa. E como crônica publicada em jornal também se distancia da idéia de comentário de acontecimento atual ao tempo da sua produção. É mais uma reflexão sobre as (im) possibilidades da palavra, mesmo da palavra em estado de literatura.
A Escrita do Fragmento – escrever as entrelinhas
Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o
que não é palavra. Quando essa não-palavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa
se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever
distraidamente
. (LISPECTOR, 1980, p. 21; 1984, p. 120)
Nesse fragmento/crônica, temos também um tema recorrente da escrita de Clarice Lispector: a metalinguagem. A palavra vista como frágil, mas também como único caminho possível para estabelecermos algum vínculo com o outro, com o mundo.
Aponta, inicialmente, para a existência de algo fora da linguagem, “o que não é palavra”, para, em seguida, constatar a existência apenas da palavra, ao menos como algo que nós, humanos, alcançamos. O que podemos apreender é o que se nos oferece, em um mundo humano, histórico, como linguagem.
Muitas são as crônicas sobre o ato de escrever, sobre a linguagem. A que se segue aborda a relação entre memória e escrita. Esta última sendo vista como um espaço simbólico em que o paradoxo habita, uma vez que “escrever é lembrar-se do que não existiu”. Como é possível essa memória do que não existiu? Com essa provocação, o leitor de Clarice é levado a questionar-se e a questionar a noção de memória como atrelada ao pretérito, como resgate do que de fato ocorreu. A memória aqui é pensada como ficção, como criação. A escrita, assim, é o lugar em que tudo passa pelo crivo da invenção, nada mais existe como dado, como fato, como determinado previamente.
Processo de contínua (re/des) construção, em que deslocamentos são operados. Lembrar-se do que nunca existiu. Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu. Como conseguirei saber do que nem ao menos sei? Assim: como se me lembrasse. Com um esforço de memória, como se eu nunca tivesse nascido. Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne viva.
(LISPECTOR, 1984, p. 58)
Para terminarmos essas breves reflexões sobre a crônica clariceana e seu caráterfragmentário, um último comentário sobre um texto que se volta, assim como os anteriores, para a escrita. Agora não para a escrita como processo, mas para a circulação do texto, para o trabalho realizado por um outro profissional que também interfere na tessitura do escrito: o linotipista.
Há uma defesa do “erro”, de uma sintaxe que se distancia da convencional, pela pontuação que respeita a “respiração da frase”. Acusada tantas vezes de não se submeter aos ditames da norma culta, Clarice reivindica uma margem de liberdade, a transgressão, a possibilidade de respirar, de não sufocar seu
texto nas águas de um conjunto de regras que são também passíveis de questionamento e mudança.
Ao linotipista
Desculpe eu estar errando tanto na máquina. Primeiro é porque minha mão direita foi queimada. Segundo, não sei por quê. Agora um pedido: não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha frase respira assim. E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar.
(LISPECTOR, 1984, p. 154)
* como a teste foi publicada em 1999, tomamos a liberdade de re-conjugar o tempo verbal 
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