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Gênero e sexualidade: moda e violência contra as mulheres e o LGBTQ+16

Gênero e sexualidade: moda e violência contra as mulheres e o LGBTQ+16

O caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo

Baseada na perspectiva anglo-saxã do feminismo, o termo gênero (gender) começa a ser utilizado de forma diferente de sexo (sex), com o objetivo de recusar o determinismo biológico, que os termos sexo ou diferença sexual possuem. Scott (1995, citado por Louro, 1997) define o gênero como o “caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo”, dando foco à construção social e histórica deste conceito. Contanto, este binarismo segue ainda uma lógica de exclusão ou pertencimento, dado que há a demarcação de fronteiras bem rígidas, não possibilitando o que Cunha (2009) se referiu como “formação de bordas”.

Talvez o primeiro elemento a ser confrontado por uma genealogia da categoria gênero deva ser necessariamente o binarismo – masculino/feminino – que pretende governá-la: uma lógica de oposição bipolar, que se constitui como estrutura de dominação alicerçada em uma perspectiva totalizante que busca impedir justamente a dispersão, fragmentação, graduação e multivocidade quze marcam a experiência corporal, escondendo assim sob a máscara de totalidades simplificadas toda a sua complexidade e potencial criativo (Cunha, 2009, p. 109).

Moda e identidade visual

Esta necessidade de pensar sobre uma ampliação além deste binarismo aparece no próprio discurso de um dos membros, que se identifica como gênero fluido, ou seja, não se encaixa nem em um polo, nem em outro e vivencia a multiplicidade e fragmentação que é própria da atual experiência de gênero, que remete à própria noção de identidade atual: gêneros não-binários que, além de transgredirem à imposição social dada no nascimento, ultrapassam os limites dos polos e se fixam ou fluem em diversos pontos da linha que os liga, ou mesmo se distanciam da mesma. Ou seja, indivíduos que não serão exclusiva e totalmente mulher ou exclusiva e totalmente homem, mas que irão permear em diferentes formas de neutralidade, ambiguidade, multiplicidade, parcialidade, ageneridade, outrogeneridade, fluidez em suas identificações (Pinho, Reis, 2016).

Nessa perspectiva, estão também todos os gêneros não-binários que, além de transgredirem à imposição social dada no nascimento, ultrapassam os limites dos polos e se fixam ou fluem em diversos pontos da linha que os liga, ou mesmo se distanciam da mesma. Ou seja, indivíduos que não serão exclusiva e totalmente mulher ou exclusiva e totalmente homem, mas que irão permear em diferentes formas de neutralidade, ambiguidade, multiplicidade, parcialidade, ageneridade, outrogeneridade, fluidez em suas identificações (Pinho, Reis, 2016).

A questão do gênero pode ser refletida na moda, nunca se falou tanto sobre este tema, que foi foco de desfiles de grandes marcas e editoriais, criando um novo nicho, por exemplo, o segmento agênero.

Roupa como declaração de identidade visual

Além de as roupas serem uma declaração sobre identidades sociais e classe, como Crane (2006) declara, são meios de expressarem os papéis desempenhados na sociedade. Contudo, no século XIX, as mulheres casadas da classe média eram ignoradas, sendo consideradas apenas as roupas de moda daquelas pertencentes às classes altas.

As mulheres das classes altas não trabalhavam fora de casa, tampouco faziam as atividades domésticas, e apresentavam roupas extremamente ornamentais e pouco práticas, que eram copiadas pelas mulheres casadas de classe média, apesar de os recursos econômicos destas serem mais limitados e com isso a qualidade das vestes ser inferior. No caso das mulheres casadas da classe operária, detentoras de menos verba para roupas se comparada aos seus maridos, havia um estilo de vida mais voltado para dentro de casa e pouca vida social (o que eu acho lindo, porque quer dizer que a gente tá cuidando mais da nossa vida que da vida dos outros), quase sem pertencer ao espaço público, ao contrário das solteiras que iam num caminho totalmente oposto, trabalhando e, portanto, tendo certa independência financeira.

O papel do gênero na moda

O papel do gênero aparece tão forte no vestuário que havia uma espécie de norma hegemônica da masculinidade, na qual o homem deveria se encaixar nos padrões de poder físico e controle, bem como de orientação sexual se vestindo de forma adequada e compatível com seus papéis patriarcais. Os historiadores apontam que no século XIX, eles se preocupavam em exibir uma imagem conservadora mesmo com as diversas mudanças que ocorriam nas roupas masculinas, com vários tipos de calças, casacos, chapéus e gravatas, por exemplo. “No final do século XX, as noções fixas de identidade de gênero e intolerância à ambiguidade de gênero foram gradualmente desaparecendo” (Crane, 2006, p. 50).

Moda e “Mulheres que se dão ao respeito não são estupradas“?

Segundo uma pesquisa realizada, em 2016, pelo Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 42% dos homens e 32% das mulheres acreditam que “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas” e 30% afirmaram que “mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada15”. No entanto, neste ano foi realizada uma exposição, na Bélgica, exibindo as roupas que as vítimas de estupro estavam usando quando ocorreu esta violência e as roupas contradiziam totalmente estas declarações, nela aparecia conjunto de pijamas e roupas largas, completamente opostas à crença destes entrevistados.

Em 2015, o Brasil registrou um caso de estupro a cada 11 minutos, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Acredita-se que a taxa de estupro seja de quase meio milhão por ano, em razão de casos que não são notificados. Há uma média de 10 estupros coletivos todos os dias no Brasil, conforme dados do Ministério da Saúde de 2016. Em São Paulo, há um estupro em local público a cada 11 horas e no Rio de Janeiro, no estado, há um caso de estupro em escola a cada cinco dias e 62% das vítimas tinham menos de 12 anos, conforme dados do Instituto de Segurança Pública.

Além disto, as taxas de crimes contra população LGBTQ+16 são muito altas, dado que o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking de assassinatos de transexuais e travestis (Soares, 2017). Segundo dados da ONG Transgender Europe (TGEu), no Brasil houve o assassinato de ao menos 868 travestis e transexuais nos últimos oito anos, ocupando o primeiro lugar dentre países da América do Sul e América Central que mais mata esta 17 população,o segundo lugar é ocupado pelo México com 259casos.

Considerado um problema de saúde, segurança pública, justiça e de saúde, a violência contra as mulheres começou a receber mais atenção na década de 90, quando a Organização Mundial de Saúde passou a participar de forma mais efetiva no que se refere às situações de vulnerabilidade, violência e perigo pelas quais as mulheres passam. No Brasil, em 1998, foram criadas as primeiras unidades de proteção para receber mulheres em situação de violência, decorrentes do Programa de Prevenção, Assistência e Combate à Violência contra a Mulher. Em 2006, um marco bastante significativo nesta luta foi a promulgação da Lei Maria da Penha, classificando tal violência como uma violação dos direitos humanos e crime, visando ao maior rigor das punições às agressões que as mulheres sofrem, seja no ambiente doméstico ou familiar, acarretando prisão para o agressor, além de outras medidas protetivas e aumento da pena (Amaral et al, 2016).

Francisco Bosco (2017) elenca uma série de movimentos contra a violência de gênero que ocorreram nos últimos anos no mundo que reforçam a necessidade de luta de reconhecimento tem crescido no cenário dos movimentos sociais, a exemplo da “Marcha das Vadias”, em 2011, “Marcha das Margaridas”, “Marcha das Mulheres Negras”, a criação do blog “Agora é que são elas”, a campanha #MeuPrimeiroAssédio e a #ChegadeFiuFiudocoletivoThinkOlga .

Moda e movimentos políticos

Por ser voltada também para o projeto reflexivo do eu, a ideia de “o pessoal é político” se fortalece aqui e nas próprias atitudes tomadas pelos membros do grupo nas formas de se vestir e de se posicionarem frente à moda. Hall (2008) afirma que os novos “movimentos sociais” focam em lutas em torno da identidade, que têm apagado o limite entre o pessoal e o político, como ocorreu com um dos movimentos de descentramento do sujeito, o movimento feminista. Os movimentos questionam esta essência de identidade e a sua rigidez como uma categoria de cunho biológico.

A moda enquanto ferramenta de contestação política não se limita apenas a este campo, porque a questão econômica também aparece, a exemplo do chamado pink money, ou seja, lucro advindo de consumidores gays (Craveiro, Martins, Moreschi 2011) e nas questões referentes ao tão falado empoderamento, associado, por exemplo, ao movimento feminista, responsável, segundo Hall (2001), por um dos descentramentos do sujeito pós-moderno.

De modo geral, nos resultados, pôde-se perceber que a moda vai muito além do vestuário pela quantidade de categorias e temáticas diferentes decorrentes deste objeto. A moda possui um discurso muito próprio manifestado pelos participantes do grupo e para eles o vestir pode ser um ato político, social, de classe, de imagem profissional, de manifestação de desacordo com a família, como uma ferramente de pertencimento, mas também de diferenciação, bem como apenas uma quetão estética e um seguimento de tendências, assim como ocorre com a identidade, que pode ser fluida, contraditória, representar aquilo que se é naquele momento e que no próximo, não se é mais

Moda: uma narrativa da sociedade

Por fim, o que se pode tirar de conclusão deste trabalho é que a moda é uma narrativa da sociedade e está presente em diversos âmbitos, se associando diretamente à noção de identidade trabalhada. Nem sempre se é o que se veste, até porque o ser é algo temporário e, às vezes, contraditório ou fragmentado. Veste-se o que é, considerando que este é não é algo fixo, assim como a moda, as suas tendências e o seu sistema, pois como Lipovetsky (2009) já dizia, é o “império do efêmero”.

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Mestrado em Psicologia Social, da UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE, de Larissa Mourão que pode ser lido na íntegra aqui.

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