Moda e Literatura

por | 5/09/2023 | 2023, coletivo lirico, cultura, cultura pop

Moda e literatura não são gêneros tão desconectados quanto aparentam ser, pois ambos trabalham com técnicas narrativas, estilos, criação e representação de realidades, além de mergulharem igualmente no universo do imaginário. As duas esferas procuram provocar impacto na mente humana, e se esforçam para mobilizar seus públicos com a criação de efeitos variados e intencionais.

Os estilistas, assim como os escritores, inspiram-se nos estímulos, nas vivências e em seus mundos externos e internos para produzirem suas criações. Algumas vezes os primeiros se baseiam em alguma obra da literatura universal para tecerem suas coleções, enquanto em outros momentos os literatos discorrem sobre o contexto ‘fashion’ em seus livros.

Em julho de 2006 o renomado Ronaldo Fraga invadiu as passarelas do São Paulo Fashion Week com modelos extraídos completamente do universo do escritor mineiro João Guimarães Rosa, especialmente de sua obra-prima Grande sertão: veredas. Sua coleção A cobra: ri uma história para Guimarães Rosa é uma homenagem muito bem-vinda ao autor celebrado em todo o Planeta, justamente quando seu livro atinge a marca dos cinquenta anos de publicação.

A moda e a literatura têm em comum um espaço ligado à fantasia e à criação. E esses elementos se cruzam na maneira que o designer ou o escritor escolhe se expressar. A ideia de que uma arte verbal é capaz de ser traduzida para algo tão visual quanto uma coleção de roupas comprova a teoria de que criadores enxergam a beleza por meio de seus sentimentos, de forma tão intensa que passa a servir como inspiração.

A literatura proporcionou alguns dos maiores e mais memoráveis ícones de estilo que marcaram a moda e o cinema: dos diamantes brilhantes de Holly Golightly, personagem principal de Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s), de Truman Capote, à mente sombria da escritora Mary Shelley, criadora de Frankenstein. Do dandismo do escritor Oscar Wilde, autor de O Retrato de Dorian Gray, à viagem no tempo detalhada em Anna Karenina, romance do russo Liev Tolstói, e aos tecidos descritos em Emma pela autora inglesa Jane Austen.

Apesar de a literatura ser uma arte de palavras, ela possui uma beleza própria, que pode ser sentida. E há muito mais por trás do belo do que apenas estética. Essa ligação direta entre beleza e aspectos sensoriais pode ser observada também em outros campos. Na religião, por exemplo, sentimentos causados pelo belo podem ser usados para favorecer a elevação dos fiéis. “As religiões buscam essa questão do belo pela música, nos gestos do ritual, pela sensibilização dos sentidos. Todas têm seus processos sensórios”, lembra o historiador e professor João Braga.

O filósofo alemão Immanuel Kant (1724–1804) foi o responsável por associar a noção de beleza a quem a enxerga, segundo a formação intelectual, cultural e sensorial do indivíduo. Braga explica que até meados do século 19 a busca pela beleza era o grande foco da arte, mas isso começou a mudar com o movimento realista, que propunha retratar fatos e formas da maneira mais realística possível. O mote era a beleza real, não a idealizada.

Já o Expressionismo ia em outra direção. “Edvard Munch, na Noruega, e (Vincent) Van Gogh, da Holanda, são precursores daquilo que virá a ser chamado de Expressionismoo qual não vai privilegiar a beleza, e sim as sensações que a pessoa tem. Pinta-se muito mais com a alma, pelo viés especialmente da deformação”, continua Braga.

Mas foi o pintor, escultor e poeta francês Marcel Duchamp (1887–1968) quem revolucionou completamente o mundo das artes. Com ele — e os movimentos de Cubismo, Dadaísmo e arte conceitual, com o qual se envolveu — , ganharam força os questionamentos sobre o conceito de arte e de belo.

Look da coleção de inverno 2021 da grife italiana Schiaparelli. Foto: Reprodução site Schiaparelli

No Movimento Surrealista, que reuniu importantes ícones das artes visuais, como Salvador Dalí (1904–1989) e Jean Cocteau (1889–1963), a ideia dos artistas era não se prender às amarras do que era tido como belo, mas criar um novo significado para o conceito. Essa perspectiva acabou tendo influências também no mundo da moda. Braga cita, por exemplo, as coleções de Daniel Roseberry como diretor criativo da grife italiana Schiaparelli, nas quais se intercalam arte e história da fundadora da marca, Elsa Schiaparelli (1890–1973), que tinha proximidade com o movimento surrealista e seus artistas.

Ao longo da história, o fascínio pela moda acabou influenciando diretamente a obra de alguns autores. Além de apreciador da moda, Oscar Wilde (1854–1900) foi um verdadeiro dândi — nome dado aos homens que se vestiam com elegância e requinte. No artigo A Filosofia do Vestido, publicado em abril de 1887, Wilde usa o sarcasmo para criticar a crescente falta de refinamento nas roupas.

“A moda se apoia na loucura. A arte se apoia na lei. A moda é efêmera. A arte é eterna. De fato, o que é a moda realmente? A moda é apenas uma forma de feiura, tão absolutamente insuportável que temos de alterá-la a cada seis meses! É bastante claro que, se fosse bonito e racional, não tiraríamos nada que combinasse essas duas qualidades raras. E, onde quer que a roupa tenha sido assim, ela permaneceu inalterada em lei e princípio por muitos séculos.” Oscar Wilde, em a “A Filosofia do Vestido”

Anos antes, em 1863, Charles Baudelaire (1821–1867) já tinha publicado um verdadeiro manifesto sobre a vida moderna em seu livro O Pintor da Vida Moderna. No capítulo O Belo, a Moda e a Felicidade, o autor incorpora concepções filosóficas e comportamentais. Ao longo da obra, também analisa croquis de vestidos da burguesia, observando o processo de criação dos estilistas, o comportamento da sociedade e sua relação labiríntica com a moda.

Imagem: Bruna Furlan e Izabella Ricciardi

Mais recentes, outras obras também merecem destaque. Como a de Alexander McQueen (1969–2010), que olhou para o livro O Iluminado, de Stephen King, para transformar sua coleção outono-inverno de 1999 em uma interpretação quase apocalíptica coberta por neve. Ou a de Alessandro Michele, que criou, literalmente, cabeças de ciborgues depois de ter sido influenciado por sua leitura de Donna Haraway, A Cyborg Manifesto, para sua coleção de inverno 2018 como diretor criativo da Gucci.

Foto da coleção “Geleia Real: a antropofagia tropicalista” da marca Anacê, enviada pela diretora criativa Clara Watanabe

Para estilistas como Clara Watanabe, diretora criativa da grife Anacê, a inspiração que emerge da arte vem do artista em si, não de seu produto final. “Todas as vezes que começo a pensar uma coleção, a parte à qual eu mais me dedico é o estudo sobre o artista individualmente, a vivência dele até chegar naquele trabalho, quais foram suas inspirações, o movimento que ele participou.”

Muitas vezes, esse processo criativo de um artista pode servir como impulso para o outro. No caso de Clara, leituras como o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade, serviram como inspiração para a criação da coleção Geleia Geral: A Antropofagia Tropicalista.

“Particularmente falando, meu processo criativo nasce a partir da leitura, de compreender cada parte dos movimentos, para assim eu conseguir formular que tipo de imagem buscarei como inspiração”, conta a estilista.

Coleções indiretamente inspiradas em obras literárias: da esq. para a dir., looks da Gucci 2018, Alexander McQueen 1996, Fendi alta-costura 2021 e Prada 2017. Imagem: Bruna Furlan e Izabella Ricciardi

Dentro da vertente da moda literária, pode ser difícil transparecer para o público as inspirações que resultaram naquelas peças, devido ao teor subjetivo e sentimental contido nelas. Na maioria das vezes, a plateia não é capaz de enxergar e reconhecer o incentivo literário por trás de uma coleção apenas vendo-a na passarela. É preciso um certo grau de conhecimento e estudo para que haja a identificação e, consequentemente, a emoção de quem vê. Mas isso não é necessariamente um problema.

“Acredito que a referência (literária) possa inspirar indiretamente, porque a literatura nos dá essa liberdade de unir pontos em comuns, de temas diversos, e transformá-los em algo concreto”, finaliza Clara.

Coleções que trazem suas inspirações literárias de forma explícita: da esq. para dir., Valentino 2019 (em colaboração com o movimento para emancipação da poesia), Prada 2019 (inspirada em ‘Frankenstein’, de Mary Shelley), Undercover Fall 2019 (inspirado no romance ‘Laranja Mecânica’) e Valentino alta-costura 2015 (inspirada na ‘Divina Comédia’, de Dante Alighieri). Imagem: Bruna Furlan e Izabella Ricciardi

Há também trabalhos em que o incentivo literário é mais nítido. Na coleção primavera 2015 da Valentino, os vestidos de alta-costura assinados por Pierpaolo Piccioli e Maria Grazia Chiur traziam bordados trechos do Inferno, uma das parte de A Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265–1321). Quatro anos mais tarde, na coleção de inverno 2019 da grife Siki Im, blocos brancos entre roupas escuras traziam poemas do poeta chileno Pablo Neruda (1904–1973). Cada um a seu modo, essas e outras coleções expõem como o sentimento que impulsiona a arte da moda pode ser traduzido entre diferentes decisões artísticas, tendo a inspiração como algo explícito ou implícito, mas que, independentemente da maneira, ainda possuem grande carga sensorial.

Bruna FurlanIzabella Ricciardi e João Quartim são alunos de Jornalismo da FAAP




Autor:

Helô Gomes
Helô Gomes é bacharel em jornalismo, premiada nacionalmente com a obra "Cordel de Moda - arte e Cotidiano na feira de Caruaru"; cobriu as principais semanas de moda do circuito Nova York, Londres, Milão, Paris, Rio e São Paulo, publicou e apresentou pesquisas científicas a convite da USP em Dublin, Moscou, Budapeste e Cracóvia, é apaixonada por literatura e arte e no Coletivo Lírico expressa todo seu olhar sobre a moda em forma de objetos de consumo afetivos

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